quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Opinião: Serra Branca e os resquícios da sociedade de corte

Por Zizo Mamede

Anacronismos

Já em pleno século XXI, no turbilhão da experiência social pós-moderna, eis que ainda persistem em nosso meio os sinais de um tempo pré-Iluminista. Já prevalecem os efeitos dos tempos pós-industriais por todas as dimensões da vida: na filosofia, na ciência, na tecnologia, na família, nas religiões, na arte e na política. Mas em Serra Branca a política de base familiar preserva práticas da "Sociedade de Ordens.” (Para não cometer anacronismos, é mais conveniente acionar aqui um conceito de “sociedade de corte” frequentemente usado pelo mestre – historiador José Valmir)

O grupo familiar que está escanchado na prefeitura confunde os espaços institucionais com uma pequena gleba de terra nos confins do Franco. A prefeitura é um cabide de empregos dos amigos e familiares do prefeito e do vice-prefeito. O carro locado para o gabinete do prefeito não fica na garagem da prefeitura. Quando não está numa das recorrentes “comemorações”, está na porta da casa do gestor municipal na avenida principal da cidade. Não há distinção entre o público e o privado.

Vivem do deslumbramento do poder. Como se fossem vitalícios em seus cargos, circundados por uma clientela que se contenta com as migalhas. Vez por outra, fazem uma concessão ao povo: comem uma galinha gorda aqui; pegam carona num velório ali; chegam na “rapa” de um aniversário acolá. Abraços. Afagos. “Beijin-beijin”. Tchau! Tchau!

Trabalhar, nem pensar!
A marca mais forte dessa cultura arcaica está exatamente no pouco valor que dão ao trabalho. Como se elegem na razão das relações pessoais, das promessas e dos favores com o dinheiro público, não acreditam na força do trabalho. Não é a toa que o município de Serra Branca está apenas assistindo a locomotiva do desenvolvimento embalar o Nordeste, mas sem uma estação de parada na cidade. O Brasil estende a mão para Serra Branca e lhe convida para avançar, como está ocorrendo com outros municípios do país. Mas para a Sociedade de Corte, que vive das aparências e da tradição, trabalhar dá trabalho. Traz responsabilidades. Traz cansaço. Traz desgaste.

Melhor para eles (e elas) é sombra e água fresca. Querem mesmo é acordar tarde. Ficar gordo roliço. No máximo, se espreguiçar. E, como ninguém é de ferro, a partir do meio dia, festejar. Trabalhar prá que?

E quando se sentem contrariados – porque na “sociedade de corte” o poder é natural ou divino e não admite contestação – dão uns esturros. Esmurram mesas. Exalam um bafo aristocrático. Nada que assuste ninguém.

O deslocamento do simbólico
Após a confirmação das vitórias de Dilma Roussef e Ricardo Coutinho nas eleições de 2010, bateu um desespero na “sociedade de corte” por conta de um fato inédito: Pela primeira vez a oposição política ao grupo gaudêncio-torreão pode comemorar uma vitória retumbante nas eleições gerais: a eleição de um deputado federal (Luiz Couto/PT), de um governador (Ricardo Coutinho/Rômulo Gouveia/PSB/PSD), de um senador aliado (Cássio Cunha Lima/PSDB) e da presidente da República (Dilma Roussef). A “ficha começou a cair” na conformação dos quadros para os cargos de governo, os chamados cargos de confiança. A agonia deles/delas é porque aquela simbologia de décadas de domínio começou a derreter. Quando as iniciativas dos novos governos para o município começaram a ser anunciadas então chegaram a um estado de desespero. Andam enraivecidos. Enfurecidos com a nova conjuntura. Esqueceram que o Brasil é uma federação.

As falsas alegrias
A “sociedade de corte” não está habituada com governos republicanos, onde o mais importante é o que é bom para a cidadania e a dignidade da população. Quando o Governo do Estado anuncia que Serra Branca estaria entre os 197 municípios beneficiados com o Pacto pelo Desenvolvimento da Paraíba, a “sociedade de corte” encena uma falsa alegria. Uma tentativa tola de ofuscar a vitória política e eleitoral da oposição no município. Aos mínimos gestos republicanos do Governador e da Presidenta, soltam foguetões, ocupam as emissoras de rádio num flagrante esforço para disfarçar o mal-estar com o quadro político que se desenha. Tentam driblar o conceito institucionalizado de república federativa.

Nesse contexto de corrosão da “sociedade de corte” tem inclusive vereador que se dispõe a cumprir o papel de “bobo da corte”. Cada um tem o papel que merece.

Dois mundos que se opõem
Em Serra Branca, nem todas as pessoas agem como súditos ou clientes. Cada vez mais pessoas aprendem, a duras penas, que o tempo é de cidadania

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